8. MUNDO 16.1.13

ENQUANTO CHVEZ NO VEM
A Venezuela decide esperar pela recuperao do presidente que est convalescente em Cuba. O poder fica intacto
Mariana Queiroz Barboza

 UNIDOS - Multido apoia o terceiro mandato de Chvez, apesar da crise provocada pela ausncia do lder
 
Hugo Chvez estava a mais de dois mil quilmetros de Caracas, na quinta-feira 10, quando milhares de cidados em vermelho se concentraram nas proximidades do Palcio de Miraflores para apoi-lo. Essa era a data marcada para o incio de seu terceiro mandato. Dois dias antes, porm, o vice-presidente da Venezuela, Nicols Maduro, informou que Chvez seria incapaz de comparecer  cerimnia.
 
Em Cuba, para se tratar de um cncer na regio plvica, o chefe de Estado precisava de mais tempo para se recuperar de uma cirurgia feita h um ms. Desde dezembro, os informes oficiais sobre sua sade indicaram que o mandatrio havia sofrido um sangramento durante a operao e que padecia de insuficincia respiratria. A constitucionalidade do adiamento da posse tornou-se, a partir da, um violento embate entre oposicionistas e governistas.A oposio logo afirmou que o 10 de janeiro era a data garantida na Constituio e que a posse seria ato imprescindvel. O adiamento e o consequente prolongamento do mandato anterior significariam, portanto, golpe de Estado. O principal porta-voz dos oposicionistas, Henrique Capriles, afirmou: O povo votou por Chvez, no por Maduro nem por seus ministros. No foi eleito um governo, foi eleito um presidente da Repblica. A permanncia de Maduro, nomeado por Chvez em rede nacional como seu sucessor, na vice-presidncia era questo-chave para o futuro poltico do pas.
 
A deciso ficou com o Tribunal Supremo de Justia (TSJ). A corte, composta por 32 juzes indicados pela Assembleia Nacional, de maioria chavista, concedeu respaldo  tese do governo. O artigo 231  que diz que se, por algum motivo imprevisto, o presidente no puder tomar posse diante da Assembleia, ele poder faz-lo posteriormente diante da Suprema Corte  foi a base do veredicto. No foi estabelecida, contudo, uma nova data para a posse. Em 1985, o Brasil passou por situao semelhante. Quando Tancredo Neves, eleito indiretamente presidente da Repblica, foi hospitalizado na vspera de sua posse, o juramento foi adiado indefinidamente. Pouco mais de um ms depois, Tancredo morreu sem nunca ter assumido o governo e o cargo ficou com o vice-presidente da chapa, Jos Sarney.

Embora esteja prevista na carta magna venezuelana a avaliao do estado do presidente por uma junta mdica, o TSJ disse no ver necessidade de convoc-la agora. Para Jess Mara Alvarado, especialista em Constituio da Universidade Simn Bolvar, essa atitude  irresponsvel. Chvez s tornou de conhecimento pblico sua doena graas s constantes exigncias da opinio pblica, disse  ISTO. At hoje no se sabe ao certo qual  sua enfermidade nem sua gravidade. No incio do ms, a cpula do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) se reuniu em Havana para jurar unidade perante o presidente, cuja sade  tida como delicada. O acesso a ele no hospital  restrito at a familiares.
 
Se Chvez for dado como incapacitado para o cargo em definitivo, haver convocao de novas eleies e a batalha mais provvel ser entre Maduro e Capriles. O confronto  difcil para os dois lados. Embora o oposicionista tenha sido reeleito governador do Estado de Miranda, em dezembro, o PSUV venceu em 19 dos 23 Estados. Mas Maduro no  Chvez. Quase toda a Venezuela gira ao redor da figura do presidente Chvez, a favor ou contra, com vnculos predominantemente emocionais mais do que racionais, disse Yorelis Acosta, pesquisadora do Instituto de Estudos Polticos da Universidade Central da Venezuela (UCV). O culto  sua personalidade foi um bastio amplamente trabalhado pelo governo. Ciente do apelo emocional de um Chvez doente, Capriles no deixou de expressar solidariedade ao presidente na semana passada. O chavismo, afinal, no deve morrer to cedo.


